Sustentabilidade
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Verão Extremo

Texto por Kamyla Jardim |  Fotos divulgação “São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”. Tom Jobim e Elis Regina já cantavam que as águas de março finalizam a temporada mais quente do ano e, em 2014, até os amantes do verão desejaram intensamente o período de […]

Texto por Kamyla Jardim |  Fotos divulgação

“São as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no teu coração”. Tom Jobim e Elis Regina já cantavam que as águas de março finalizam a temporada mais quente do ano e, em 2014, até os amantes do verão desejaram intensamente o período de chuva do mês de março, mas ele virá?
O calor absurdo de janeiro e fevereiro, como esperado, já deu uma trégua. A mudança climática foi global. De acordo com estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o aumento das temperaturas tem colocado em xeque uma máxima conhecida entre os especialistas em meteorologia de que, no Brasil, o verão é chuvoso e o inverno, seco. Em 2014, ocorreu o oposto, o verão foi extremamente seco, com temperaturas que não eram sentidas desde 1916 em Porto Alegre. Tudo isso por causa de um bloqueio atmosférico formado por uma massa de ar quente e seca, que impediu o avanço das frentes frias causadoras das chuvas.
De acordo com especialistas, normalmente, esse sistema de alta pressão se forma no meio do oceano Atlântico. Porém, essa massa se posicionou mais próxima ao continente desta vez. Além de impedir as chuvas, o sistema de alta pressão se caracteriza por temperaturas elevadas, como pode ser observado nos sucessivos recordes de temperaturas registrados nas principais cidades brasileiras nos últimos meses.
A ocorrência desse fenômeno gera o aumento da temperatura dos oceanos, intensificando o processo de evaporação. Com isso, nuvens mais profundas são formadas e, uma vez “furado” o bloqueio atmosférico, chuvas mais intensas ocorrem. A expectativa dos especialistas é que para o mês de março só reste chuva, com o bloqueio atmosférico dissipado. Entretanto, eles afirmam que apostar que irá chover em nível suficiente para compensar a falta de chuvas em janeiro e em fevereiro é bastante arriscado, pois a mudança climática foi intensa.
A maioria dos trabalhadores gaúchos suaram muito a camisa, literalmente, nos últimos meses. O verão castigou quem estava longe do litoral. Já os veranistas foram gratificados com dias de praia regados a um mar quentinho, de cor clara, e relativamente calmo – um cenário perfeito para os banhistas.
Vento, então, não existia. Neste ano, o litoral norte gaúcho só registrou duas ocorrências do Nordestão – o vento típico das praias, e pode chegar a 50 km/h. Muitos veranistas, inclusive, chegaram a confundir a paisagem gaúcha com a das praias de Santa Catarina. Apesar do cenário perfeito para passar uns dias na praia, as mudanças revelam uma postura preocupante do clima litorâneo. A temperatura média do mar na costa do RS subiu pelo menos 4ºC em dezembro e janeiro e a vida marinha também está sendo afetada pela elevação da temperatura. Os pescadores tiveram dificuldades e mudaram sua localização para poder encontrar algumas espécies em águas mais frias.
Além disso, a seca e o calor excessivo do verão de 2014 causaram muitos prejuízos à agricultura do Sul do Brasil. A produção de soja no Paraná foi duramente afetada. A falta de chuva deixou os grãos murchos e pequenos. A produção de sementes para plantio da safra de 2015 também deve ser prejudicada por causa das anomalias climáticas de 2014. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina também já contabilizam perdas na agricultura.

Os próximos anos

A falta de chuvas durante o verão se tornará cada vez mais frequente no Brasil nos próximos anos, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para os especialistas, o setor elétrico brasileiro, cujo sistema que é predominantemente hidroelétrico, precisa estar preparado para lidar com as mudanças climáticas.
Os modelos meteorológicos mostram uma mudança no comportamento das chuvas para os próximos anos. Em termos de volume, não há nenhuma alteração significativa, exceto no possível aumento das precipitações na região Sul (especialmente no Rio de Grande do Sul). Contudo, o que se projeta são chuvas cada vez mais intensas e concentradas, com longos períodos sem chuvas e temperaturas mais altas.
Especialistas afirmam que, com o aumento de temperatura, em regiões do país com alta disponibilidade hídrica, as chuvas tendem a ser cada vez mais fortes, tendo em vista a intensificação do processo de evaporação. Em regiões com menor disponibilidade hídrica, o movimento é o inverso e a tendência é de as secas se tornarem cada vez mais severas. Além disso, observa-se que a frequência de dias e noites mais frias está diminuindo, enquanto está aumentando a frequência de dias e noites mais quentes.
O aumento de temperatura também favorece a formação de bloqueios atmosféricos, como o observado neste verão. A frequência de bloqueios como o atual pode aumentar, mas os pesquisadores não sabem qual o período de recorrência. Em vez de ocorrer, por exemplo, a cada quarenta anos, isso pode ocorrer a cada trinta, vinte ou dez anos.

Culpa do aquecimento global?

Fonte Agência Brasil

O calor registrado em 2013 e neste início de 2014 pode acontecer com mais frequência nos próximos anos se o país não conseguir reduzir o impacto do aquecimento global no meio ambiente, explicou o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Carlos Nobre.
O secretário revelou que episódios isolados de períodos muito secos ou de muitas chuvas já ocorreram no passado, e alguns são típicos das estações do ano, como as ondas de calor. “Um fenômeno extremo isolado não permite que alguém imediatamente aponte o dedo e diga que é culpa do aquecimento global”, disse. No entanto, explicou que o aquecimento global aumenta o número de ondas de calor. “Cem anos atrás, esse calor extremo acontecia a cada dez ou 20 anos. Com o aquecimento da Terra, vamos viver isso com mais frequência, e daqui a 100 ou 200 anos, esse vai ser o clima do dia a dia”, revela.
Segundo ele, diferentemente do que ocorre com o homem, um grande número de espécies não consegue acompanhar essas mudanças, principalmente as vegetais. “A extinção é rápida e a reconstituição da biodiversidade é lenta. Devemos esperar uma perturbação e uma extinção em massa, se isso não mudar”, conta.
Como, em certo grau, a mudança no clima já se tornou inevitável, para Nobre seria irresponsabilidade da sociedade não cuidar de uma adaptação a essas mudanças. “Os países desenvolvidos têm sistemas que diminuem a vulnerabilidade a desastres naturais, mas os países em desenvolvimento ainda sofrem muito. Nossa lição de casa básica é tornar as sociedades e o meio ambiente mais resilientes para o que está acontecendo hoje”, afirma.
Fortalecendo as afirmações do secretário, a presidente do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), Suzana Kahn Ribeiro, diz que é necessário repensar o crescimento das cidades, os padrões de consumo e as políticas de eficiência energética, entre outros fatores, para tentar reverter a mudança no clima.

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