Literatura
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Primavera

| Rosane Castro Escritora e Narradora de Histórias Passeavam de mãos dadas pelas ruas cobertas pelas flores dos ipês. Era sempre assim. Nunca os vi distantes. Alguns diziam que eles nasceram um para outro. Os cabelos brancos denunciavam o tempo. Não eram mais jovens, mas mantinham a paixão da juventude. Era bonito ver. Eles se […]

Primavera

| Rosane Castro
Escritora e Narradora
de Histórias

Passeavam de mãos dadas pelas ruas cobertas pelas flores dos ipês. Era sempre assim.

Nunca os vi distantes. Alguns diziam que eles nasceram um para outro.

Os cabelos brancos denunciavam o tempo. Não eram mais jovens, mas mantinham a paixão da juventude. Era bonito ver.

Eles se conheceram na escola. Não sei se foi amor a primeira vista. Acho que não.

Fiquei sabendo que o primeiro encontro foi durante as aulas de Química, no laboratório. Desastrada, ela deixou cair um copo béquer nos pés dele, manchando o tênis All Star e a barra da calça jeans. Abaixou-se para juntar os cacos do recipiente. Ele, por sua vez, queria apenas se limpar. Ambos, no mesmo instante, vergaram o corpo. Resultado: bateram as cabeças.

O rapaz achou engraçado. Ela também. Pediu desculpas e saiu tropeçando na timidez. Enquanto isso, ele tentava se livrar do líquido viscoso que encharcara seu tênis.

Foi um ano inteiro de encontros no laboratório e nos corredores da escola. Não eram colegas de aula, muito menos amigos. Simplesmente, ele era assistente do professor de Química. Com isso, aprendia a matéria que mais lhe fascinava. Ela não entendia nada de química, até conhecê-lo.

Os meses passavam, cheios de novidades. Iniciava-se a polinização.

Numa tarde de primavera, enquanto todos estavam aproveitando o intervalo para caminhar no jardim e aquecerem-se ao sol com suas conversas animadas, eles se encontravam às escondidas na biblioteca.

Entre estantes vergadas pelo peso dos livros, mesas descascadas pelo tempo e uso, mapas mundi e pilhas de enciclopédias Larousse, beijaram-se pela primeira vez.

Foram nestes dias primaveris que descobriram a matemática do amor.

Não demorou muito para que unissem as mãos, antes solitárias, e descobrissem a geografia de seus corpos. Passeavam pela escola disfarçando o namoro, mas não conseguiam enganar ninguém. Nem mesmo a diretora.

– O amor é lindo, não é? – dizia aquela senhora que entendia de alunos e de amores.

Há coisas que ninguém consegue evitar. Uma delas é a vacina BCG, a outra é o amor.

Eles estavam amando.

Os planos que fizeram ainda adolescentes permaneceram quando adultos. Realizaram alguns. Outros, não tiveram tempo.

Na vida, todos passamos pelos rituais e seus ciclos. Não foi diferente com aquele casal admirável. Eles sabiam que um amor que durara mais de 55 anos não seria para sempre, mas eterno.

“Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber que o “pra sempre”
sempre acaba”.
(Legião Urbana)

A história é linda, assim como amor que sentiram.

Ainda o vejo, nos meses de agosto e setembro, quando os ipês florescem, caminhando pelo tapete roxo bordado pelo vento.

Nunca está sozinho. Carrega a lembrança de sua amada e um sorriso apaixonado nos lábios.

As mãos? Vejo-as. Unidas.

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Escrito por trcom

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